Protagonista de “C.I.C.”, filme disponível no Globoplay, Alana Ferri acredita que as personagens femininas mais interessantes são aquelas que escapam dos rótulos. A ideia acompanhou toda a construção de Mikaela, agente que ela interpreta no longa e que exigiu uma preparação intensa, envolvendo outro idioma, treinamento físico e cenas de ação. Mas a reflexão não ficou restrita à ficção. Ao falar sobre carreira, empreendedorismo e liberdade, a atriz também revela como algumas das transformações vividas pela personagem acabaram ecoando na própria vida.
Muito além da “garota de alguém”
Em “C.I.C.”, uma das cenas faz referência à apresentação da primeira Bond Girl, vivida por Ursula Andress. A homenagem, no entanto, serve também para marcar uma diferença importante na forma como Alana enxerga as personagens femininas.
“Na verdade, no filme a gente recria uma cena que faz referência à apresentação da primeira Bond Girl, a Ursula Andress. A cena clássica dela é saindo do mar com conchas nas mãos. Já no filme, a cena de apresentação da Mikaela é ela saindo do mar com um peixe que pescou e que vai ser o almoço deles.
Foi uma honra fazer essa cena e homenagear um momento tão icônico. Inclusive, o meu figurino se assemelha ao dela. Isso foi muito especial. Mas a questão da Bond Girl está no próprio nome. Quando a gente pensa na tradução, é ‘a garota do Bond’. Ser a garota de alguém, me limitar a isso, não é algo que me interessa nem na minha vida pessoal nem nas personagens femininas que gosto de ver no cinema.”
Para a atriz, ainda existe espaço para que mais histórias coloquem as mulheres no centro da narrativa.”Eu quero ver personagens na sua complexidade, com toda a sua humanidade, suas contradições, sua força e seu protagonismo, e não mulheres que se resumam a um acessório de um homem.
As últimas Bond Girls já vêm mudando nesse sentido e têm muito mais protagonismo do que tinham antes. E é isso que eu ainda sinto falta de ver mais no cinema de forma geral: mulheres realmente protagonizando as suas histórias e as histórias no geral.”
Construindo Mikaela
A preparação para viver a personagem começou pela linguagem, mas acabou influenciando outras áreas da vida da atriz. “Treinar o sotaque e começar a pensar na Mikaela já foi uma forma de me distanciar de mim mesma e começar a construir uma nova identidade. Depois isso foi para o corpo também, não só para a voz. Vieram os treinos de luta, a musculação, e eu intensifiquei toda a preparação física.”
Ao longo do processo, Alana percebeu que algumas características da personagem também passaram a influenciar sua rotina. “O que mais fez diferença para mim foi que a Mikaela me influenciou na forma de ser muito obstinada. Eu queria que ela tivesse os braços mais definidos, uma postura de luta muito firme. Isso trouxe uma obstinação muito grande na hora de treinar e me dedicar.”
Entre os aprendizados que permaneceram após as gravações, um deles segue presente até hoje. “E o que ficou dela para mim foi justamente a luta. Os treinos de taekwondo continuaram mesmo depois do fim do filme. Virou algo que eu gosto, que trouxe para a minha rotina e que me influencia até hoje.”
A força de acreditar
Embora o cinema de ação costume ser associado à força física, Alana acredita que a principal característica de Mikaela está em outro lugar. “Acho que, além da força física, a Mikaela tem a força de acreditar em um propósito, de acreditar em algo e lutar por isso. Eu acho que é uma força muito bonita de se ter.”
A personagem também carrega uma experiência com a qual muitas mulheres se identificam. “Ela também tem a força de ocupar um ambiente profissional dominado por homens. Qualquer mulher que está em um ambiente assim precisa ter força para ocupar aquele espaço, porque muitas vezes parece que você está sempre tendo que provar o seu valor, provar que merece respeito e que merece estar ali.”
Essa mesma determinação é algo que Alana reconhece na própria trajetória. “Eu precisei me reinventar não só como atriz, mas também como empresária. Ao mesmo tempo em que a empreendedora surgiu em um momento de um ‘não’ como atriz, eu também recebi ‘nãos’ como empresária.
Chegou um momento em que precisei recomeçar do zero. E o que eu pensava era: podem ter tirado tudo o que eu construí, mas não podem tirar a minha capacidade de criar mais.”
Mais de uma versão de si mesma
Ao longo da carreira, Alana ouviu diversas vezes que precisava escolher um único caminho. Hoje, vê justamente o contrário. “Essa é fácil, porque é um conselho que eu sempre ignorei: a ideia de que você não pode ser boa em várias coisas ao mesmo tempo. Depois, quando comecei a empreender, ouvi novamente que não daria certo, porque a carreira de atriz e a carreira de empresária são trabalhos em tempo integral e eu não conseguiria conciliar as duas coisas.”
O tempo acabou mostrando outra realidade. “E que bom que eu ignorei esse conselho. A própria Mikaela é consequência disso. Se eu tivesse focado em uma única habilidade, provavelmente nunca teria sido escolhida para interpretar essa personagem.
E também não teria conquistado a segurança financeira que hoje me permite continuar investindo na minha carreira de atriz. Atualmente, quem sustenta o meu sonho de atuar são as minhas empresas.”
Ao imaginar um encontro com a própria versão de dez anos atrás, a resposta surge de forma simples. “Eu acho que a Alana de dez anos atrás iria querer viajar comigo. Viajar foi uma das formas que encontrei de fazer isso por mim mesma e também de facilitar esse processo para outras mulheres. Então, acho que a minha melhor resposta seria simplesmente levá-la comigo.”





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