Escrever um livro em trinta dias nunca foi um problema para Mário Frazão. Ao longo da carreira como ghostwriter, transformou histórias de empresários, artistas, atletas e políticos em mais de 90 livros publicados. O desafio apareceu quando decidiu contar a própria história.

Em Não Procure Seu Ex, Procure Seu Eu, lançado pela Luzes Editorial, o escritor troca os bastidores do mercado editorial por uma narrativa atravessada pela própria experiência para refletir sobre términos amorosos, luto e reconstrução da identidade. E, curiosamente, o livro que mais fala sobre ele foi também o que mais demorou para ficar pronto.

“Na verdade, eu já tenho dois livros publicados, mas ambos acadêmicos, ainda fruto do meu mestrado em linguística e minha pesquisa com religiões de matriz africana. O que mais me intrigou é a velocidade, eu consigo tranquilamente, produzir um livro como ghostwriter em trinta dias, mas o meu levou três anos, e não apenas pela carga de trabalho, mas pela minha necessidade de ser íntegro na minha produção.”

Um livro sem receitas prontas

Ao contrário de boa parte dos títulos sobre relacionamentos que ocupam as prateleiras atualmente, o livro não pretende ensinar como superar um ex em poucos passos. Para o autor, a tentativa de simplificar experiências complexas acaba produzindo mais ansiedade do que acolhimento.

“Eu não sei ao certo, mas desconfio que estejamos vivendo um momento de muitos ‘comos’, ou seja, como fazer isso, como passar por aquilo, 10 passos… enfim. Isso vende, se populariza, então é muito difícil ir contra essa corrente. Existe uma famosa teoria sobre o luto, da psiquiatra Elisabeth Kubler-ross, que rapidamente se transformou em métodos, testes e manuais. Isso não ajuda, ao contrário, faz as pessoas acreditarem que existe receita de bolo para se viver uma experiência dessa natureza. Minha intenção é exatamente o contrário, é mostrar que dentro da complexidade de uma experiência de rompimento, só precisamos voltar a atenção pra nós mesmos, cada um a seu modo, cada um no seu tempo, cada um com sua história.”

Quando a dor muda de lugar

Essa escolha acompanha a própria proposta do título. Embora Não Procure Seu Ex, Procure Seu Eu soe como um conselho direto, Mário faz questão de mostrar que a resposta para o sofrimento não está pronta.

“Existem duas descobertas importantes para o leitor. A primeira é que o sofrimento pós-término é uma dor válida, importante, que não é menor, nem é “só esquecer e tocar a vida”. Digo isso porque os amigos, não sabendo muito o que fazer, descambam pros conselhos fáceis que ouvimos a vida inteira, coisas como “foi um livramento, ele não te merecia”, etc. Então, contando os meus sofrimentos, quero que o leitor entenda a importância do sofrimento dele, que isso é algo a ser observado e jamais banalizado.

Depois, a descoberta de que sofrer não é uma prova de ter amado. Porque existe uma falsa equivalência: se estou sofrendo muito é porque eu amava demais, logo preciso dar um jeito de voltar pra ele. Isso quase nunca é verdade. Em geral, sofrimentos muito grandes mostram um eu em sofrimento. É um sofrimento por si mesmo, por um desequilíbrio pessoal, uma libido sem direcionamento. Não tem nada a ver com o outro, o outro aqui é apenas a muleta que escorava o nosso edifício pessoal em ruínas. Entender que o sofrimento diz respeito a si mesmo e não ao outro que foi embora muda toda a estratégia de retorno à vida plena.”

Escrito durante um processo de luto

A reflexão não nasceu apenas da prática clínica. Ela foi atravessada pela própria vida do autor. Enquanto finalizava o livro, Mário também vivia um novo término de relacionamento.

“Meu último casamento acabou em janeiro deste ano, 2026, ou seja, pouco mais de seis meses. A finalização desse livro foi feita concomitante ao meu mais intenso processo de elaboração de luto e foi pra mim parte do meu processo de “cura”, embora a palavra cura seja muito controversa na psicanálise. O que eu tenho feito cada dia mais são perguntas. Eu não me digo nada, mas me pergunto muitas coisas. Acho que esse é um hábito importante quando queremos trazer um conteúdo para nossa consciência. Fazer perguntas para que estejamos mais conscientes dos nossos porquês. Quando sinto saudade do ex, por exemplo, eu me pergunto “mas estou com saudade exatamente do quê?”, imediatamente vejo que não é exatamente saudade, mas carência, solidão, e consciente disso, redireciono meus sentimentos.”

As páginas que ele mais gosta de revisitar

Esse processo também mudou a relação do escritor com a própria obra. Em vez de evitar determinados trechos, ele voltou a alguns deles diversas vezes.

“Uma das primeiras amigas que compraram no lançamento leu o livro inteiro em um dia, logo depois ela respondeu a uma caixinha de perguntas no meu instagram e me perguntou qual parte eu tinha tido mais dificuldade de escrever, e eu respondi que foi a apresentação do livro. Realmente esse foi um texto desafiador que envolvia justificar tudo que estava ali, apresentando a obra ao leitor, então é um dos textos que eu gosto mais e sempre estou relendo. Gosto de revisitá-lo.”

Se o livro nasceu de uma necessidade pessoal, os próximos passos ainda dependem da forma como os leitores irão recebê-lo. Mas Mário não descarta continuar explorando o tema.

O próximo capítulo

“Quero ver como esse tema vai repercutir e como ela vai ser absorvido pelas pessoas, mas como minha clínica também tem recebido muitas demandas de luto amoroso, provavelmente virá outra obra no mesmo seguimento, talvez um pouco mais calcada na psicanálise e menos em narrativa pessoal, mas isso ainda é apenas uma ideia, nada concreto.”

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